Assistente de Tarcísio Zanon na campeã Viradouro, Nicolas Gonçalves surpreende no Arranco, com inventividade plástica apoiada na empatia
Nicolas Gonçalves. Terminado o carnaval de 2024, já dá para dizer que o nome do jovem carnavalesco paulista, de apenas 25 anos, sintetiza umas das mais significativas surpresas dos desfiles na Sapucaí. Carnavalesco responsável pelo Arranco do Engenho de Dentro, ele imaginou um enredo em que o carnaval dava à psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) a oportunidade de visitar o tempo presente do Instituto que leva o seu nome, ao mesmo tempo revolução e pilar da luta antimanicomial a partir da arte. A posição desonrosa da escola, em 14o lugar, diz muito mais sobre a forma como os desfiles do grupo são julgados do que sobre o trabalho artístico apresentado (reveja o desfile clicando aqui).
Nascido em Guaratinguetá, cidade com tradição de cortejos carnavalescos, o artista formou-se pela Escola de Belas Artes da UFRJ, é assistente de Tarcísio Zanon na campeã Viradouro (leia texto sobre enredo este ano, clicando aqui) e trabalhou no barracão de Leonardo Bora e Gabriel Haddad na Grande Rio em 2022, atuando na cenografia da alegoria da comissão de frente e do último carro do desfile sobre Exu.
Com Zanon diz ter aprendido, além do apuro estético, que um carnavalesco precisa ir além de suas funções artísticas, atuando como um diretor e um mediador de relações dentro da escola, promovendo escuta e representatividade. Do período de convívio com Bora e Haddad absorveu o fascínio pelo experimental, tanto no que diz respeito à forma quanto à pesquisa de materiais, além de um raciocínio de equipe, de criação que se dá na coletividade. A passagem do Arranco deixou estas raízes de Nicolas muito evidentes, mas apontou ainda para um artista que sabe traduzir o enredo em imagens, olhando com afeto para a história que a escola escolheu contar e trabalhando com muito afinco para dar a ela uma leitura singular em cada alegoria e cada fantasia.
Vencedor do Estandarte de Ouro Fernando Pamplona, categoria do prêmio do jornal O Globo que reconhece a inventividade artística, o jovem carnavalesco surpreendeu logo na entrada do Arranco, com o tripé que era um gigante azul trazendo uma luz na região dos olhos, e demonstrando de forma muito sintética como o inconsciente pode ser lanterna a iluminar o mundo. Ou como a loucura pode ser apenas uma outra forma de trazer as palavras e as coisas para a luz.


Acima, tripé (foto Danilo Ventura) e croquis com o projeto, que sofreu adaptações
A escolha do enredo aproximou Nicolas do território do Arranco, agremiação que fica a poucos metros do Instituto Nise da Silveira, no bairro do Engenho de Dentro. A escola tem um matriarcado feminino em sua direção: a presidente, Tatiana Santos, é filha da vice-presidente, Dinah Santos. No carnaval passado, elas já tinham dado para o artista Antônio Gonzaga, hoje na Portela, realizar um enredo sobre o compositor Zé Espinguela e o surgimento das escolas de samba (lembre o desfile de 2023 clicando aqui).

A aposta em novos artistas também faz parte de um jogo estratégico (sabe-se que um nome mais experiente não aceitaria trabalhar nas condições precárias de dinheiro e produção de algumas agremiações do Acesso, especialmente aquelas, como o Arranco, que subiram dos desfiles da Intendente há pouco tempo). Mas Tatiana e Dinah têm o grande mérito de convites a artistas com grande potencial plástico e narrativo, que entenderam que seria preciso formular enredos que se aproximassem da identidade e da comunidade. Gonzaga, aliás, voltou a fazer essa costura identitária este ano, no Especial. Com o enredo Um defeito de cor, assinado com André Rodrigues, promoveu uma reconexão da Portela com sua africanidade. A dupla segue na escola de Oswaldo Cruz para o carnaval 2025.
Há uma expressão significativa e recente ao tema da saúde mental na cultura carnavalesca e já vimos alusões tanto sutis quanto diretas a essa questão. Bora e Haddad fizeram em 2018, na Acadêmicos do Cubango desfile sobre a obra do artista Arthur Bispo do Rosário, que passou décadas internado na antiga Colônia Juliano Moreira, e também homenagearam o pai de santo Joãozinho da Gomeia (Grande Rio, 2020), que chegou a ser tratado por problemas mentais por causa de suas visões e transes na infância. No ano passado, a Viradouro foi vice-campeã com tributo a Rosa Maria Egipcíaca, mártir afro-brasileira da Inquisição. Todos foram desfile que de alguma forma conectaram a arte (visual e do carnaval ou literária) a psicopatologias, dando abertura a uma outra visão de mundo, mesmo que abstrata e subjetiva, daquilo que foi rotulado como “loucura”.
‘Carnaval da Série Ouro e uma luta diária’
A estreia de Nicolas, e o desenvolvimento do enredo escrito em parceria com Cleiton Almeida, ofereceu ao público soluções muito criativas para a escassez de material e de recursos evidentes que o Arranco exibiu. Um ponto alto foi a ala dos bate-bolas, cuja roupa era feita de bolas compradas no comércio popular, envoltas por um saco de tule. Outro destaque foi o uso de materiais como tubos de conexão, copos de acrílico em tons flúor e caixas de cerveja para a realização de chapéus e adereços.
No diálogo entre fantasias e alegorias, um ponto alto setor iniciado pelo carro que girava com as mandalas coloridas, uma referência à obra do artista Fernando Diniz, um dos “clientes” de Nise – a doutora se recusava a chamar os frequentadores de seu ateliê de terapia pela arte de “pacientes”. As mandalas do carro eram rebatidas e voltavam a ganhar movimento nas fantasias da ala das baianas, tingidas com volumes que emulavam “aquareladas” coloridas em um papel branco. O estudo de volume desta e de outras alas, pensado a partir da visão aérea das arquibancadas, é algo que também foi muito usado pela veterana Maria Augusta, mestra da cor, em seus desfiles, em especial os realizados na União da Ilha.

Nicolas não esconde as dificuldades para botar seu desfile de pé (“Carnaval da Série Ouro é uma luta diária”, disse em conversa com os autores deste texto). Só foi possível chegar à Sapucaí porque foi ele abrindo mão de algumas ideias, ressignificou alegorias da Portela e da Viradouro e reaproveitou tecidos e aviamentos das fantasias do Arranco feitas por Gonzaga em 2023. Contou ainda com a vice-presidente Dinah Santos costurando todos os protótipos e coordenando a bancada de costureiras para a reprodução de fantasias. E teve a inestimável ajuda de um grupo de amigos ligados à EBA-UFRJ e ao trabalho de assistência nos barracões para ajudá-lo, “ganhando muito pouco por acreditar no projeto”.
Não romantizamos a falta de dinheiro – e acreditamos que o poder público precisa olhar para a Série Ouro com o respeito e a seriedade que as escolas tão importantes que desfilam ali merecem. Mas é inegável que o artista superou as dificuldades com escuta, abertura ao diálogo, poder de edição e de empatia. Ao ser desenvolvido pela execução de fantasias e alegorias, o enredo transferiu para elas a noção de que a arte e a criatividade são ferramentas de resistência e de reintegração contra o caos e os traumas sociais. Isso se deu especialmente nos setores subsequentes inspirados na experiência visual singular das mentes incluídas nesses grupos reprimidos.
Acima, croquis de Nicolas Gonçalves
Lutando contra um sistema de psiquiatria vigente que tratava os pacientes com choque elétrico, amarras e lobotomia, Nise ganhou a admiração de Jung, com quem trocou inúmeras cartas, ao instalar um Ateliê de Terapia Ocupacional no Engenho de Dentro. Seus parceiros fundamentais foram a enfermeira e assistente social Ivone Lara – que no meio do samba ainda não tinha recebido o afetuoso prenome “Dona” – e o artista Almir Mavignier, que levou colegas como Abraham Palatnik e Ivan Serpa e o crítico Mario Pedrosa para a interação com os artistas do Engenho de Dentro (em seu blog anterior à Revista Caju, Daniela Name escreveu dois textos sequenciais contando esta história, leia aqui e aqui).
Artistas egressos do Ateliê, como o já citado Fernando Diniz (trabalhos abaixo), Adelina, Arthur Amora, Emygdio de Barros e Carlos Pertuis são nomes muito marcantes tanto na história das imagens do inconsciente, como para inspiração para concepção plástica do desfile, com capricho no uso de formas, cores, movimentos e delírios para criação de uma atmosfera que contrasta com a melancolia, dando vida à imaginação e celebrando a superação através da arte.
A pintura e outras expressões artísticas são apresentadas como uma janela para uma nova realidade, ecoando a mensagem do samba-enredo, que destaca o poder da felicidade, empatia e do afeto como uma defesa contra os conflitos do inconsciente. Loucura é não saber amar.



Acima, três mandalas de Fernando Diniz, trabalhos técnica mista sobre papel, s.d.
Foto do cabeçalho
Danilo Ventura (detalhe) – Abre-alas do Arranco do Engenho de Dentro
Leia também:
Uma África ofídica – Análise pré-carnaval do enredo da Viradouro – Daniela Name – Clique aqui.
Suculenta cara do Brasil – Análise pré-carnaval do enredo da Mocidade – Ruan Avelar – Clique aqui.
Lampião do imaginário – Análise do desfile da Imperatriz em 2023 – Daniela Name – Clique aqui.



