Uma das Escolas mais jovens da série Ouro (antigo grupo de acesso) de 2022, a Acadêmicos de Vigário Geral, cantará na madrugada do segundo dia de desfile: “o samba resiste na Pedra do Sal”. É na resistência e na história que a Vigário Geral se apoia ao desenvolver o enredo “Pequena África: da escravidão ao pertencimento – camadas de memórias entre o mar e o morro”.

A região que atualmente abriga os bairros da Gamboa, Saúde, Santo Cristo e parte do centro do Rio de Janeiro pode ser conhecida pelos seus concorridos bares e botecos, pelo maior painel de grafites da cidade ou mesmo pelos diversos equipamentos culturais que surgiram após a revitalização da Zona Portuária. No entanto, a mesma região quando vista como Pequena África indica outras vozes, outros lugares, outras histórias.
É na Pequena África, por exemplo, que encontramos o Cais do Valongo, hoje com título de Patrimônio cultural da humanidade dado pela UNESCO, que foi um dos principais portos de entrada de milhares de africanos escravizados no Brasil entre os séculos XVIII e XIX. Também na mesma região há o Cemitério dos Pretos Novos, onde entre 1772 a 1830 foi lugar de sepultamento dos escravizados que morriam na travessia ou logo no desembarque na Baía de Guanabara.
Cais do Valongo: tirar dos olhos o desembarque dos escravizados
O enredo proposto pela Vigário Geral, a cargo dos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales, Marcus do Val, lembra que a construção do Cais do Valongo foi uma tentativa de afastar do Largo do Paço e do Cais do Pharoux, hoje Praça XV, o desembarque dos escravizados. Viajando em condições insalubres os sequestrados de sua terra de origem, egressos de diversas nações africanas, desembarcavam no Rio de Janeiro doentes, sem ter dito direito a banho por semanas seguidas, com o corpo ferido pela tortura ou inchado e sangrando em decorrência o escorbuto. Não era uma visão agradável para a elite branca que circulava nos arredores do Paço Imperial, e o Marquês de Lavradio ordenou que o desembarque passasse a ocorrer no Valongo.
Em seu romance “O crime do Cais do Valongo” (Malê), a escritora Eliana Alves Cruz mostra as condições difíceis dos que desembarcavam e passavam a viver ali, com os corpos dos que não haviam resistido sendo empilhados no cemitério e o cheiro da carne em decomposição se espalhando pelas esquinas. No livro, vemos também o florescimento de uma cultura de muitas origens africanas na região.
Além de lugar de mercadorias, a região da Pedra do Sal e do Largo da Prainha passou a ser um ponto de resistência das práticas religiosas e do florescimento dos ritmos de origem africana que, anos mais tarde, desembocariam no samba. Isso se daria sobretudo em outro reduto de resistência negra na cidade: a Cidade Nova, especificamente o quintal de Tia Ciata, ponto de encontro de Heitor dos Prazeres, Donga e Pixinguinha. O samba da Acadêmicos de Vigário Geral cita a baiana matriarca e os músicos, lembrando que, neste outro momento histórico, a Pequena África fazia parte do circuito frequente de Pixinguinha e seus amigos.
Mas a importância matricial da Pequena África é tão grande que suas histórias são constantemente retomadas pelas escolas de samba. Em 2022, além da Vigário Geral, elas aparecem no samba de enredo da Paraíso do Tuiuti (“Meu sangue negro que escorre no jornal/
Inundou um oceano até a Pedra do Sal”) e no enredo da Acadêmicos do Salgueiro. É partindo do entendimento de que esta região é um precioso bem histórico-cultural e de compreensão do processo da diáspora africana no país que a Acadêmicos do Vigário Geral contará e cantará sobre as dores, lutas, resistências e alegrias que a compõem.
Ouça o samba da Vigário Gera para o Carnaval 2022:
Leia na Teia Crítica, do mesmo autor:
Chica Xavier (Por dentro do enredo da Acadêmicos do Cubango) – CLIQUE AQUI.
Autor
Historiador da arte e mestrando em Artes pela Uerj.

